Dona Nica
Dona Doralice, mais conhecida como Dona Nica, 83 anos, antiga moradora, lembra-nos da vida agitada do Engenho Velho desde sua adolescência. “Tanta coisa boa. Me lembro dos jogos de futebol, eram torneios, dos afoxés, do clube Biriba, do terno de reis Girassol. Era criança, adolescente… minha vida foi toda dessas coisas. Tinha o Cine Amparo… foi uma das coisas que fez saudade. Era um cinema aqui pertinho. Mas, acabou.”
Aposentada pela Fundac, antiga Escola de Menores, a “tia Nica”, como chamavam seus pupilos, sempre combinou sua vida às atividades dos blocos e afoxés nos carnavais de bairro, aos ternos de reis, aos “batuques” dos quais a lembrança é viva, às agitações que compunham a vida do bairro há algumas décadas. “Eu saía de terno, em cordão, em afoxés, acompanhava o Congo d’áfrica, saía no terno Girassol, a gente gostava de representar comédia, eu saía em batucadas. Aqui a gente fazia o 2 de julho, tinha um terreiro aqui de junto que fazia uma festa grande. E a gente rezava o mês de Maria na capelinha do Solar.”
D. Nica também faz referência a Bimba, o mestre e criador da Capoeira Regional. “Eu me lembro que mamãe dizia que não era pra gente ir lá. A gente ia. Teimava. E olhava e escondia… Ele [Mestre Bimba] tinha uma academia aqui no Engenho Velho. Mamãe não gostava… dizia que capoeira era dança de marginalidade, era um tal de pontapé na cara do outro, tapa…”.
Sem perder sua ternura e solicitude, D. Nica “leva” a vida, como enfatiza tantas vezes, misturando saudade e busca por agitação, “folia”. Participando hoje de um grupo de idosos no bairro de Narandiba, a torcedora apaixonada do Bahia continua mantendo sua vitalidade e compromisso com suas obrigações. Uma delas é a montagem regular de um presépio nos finais de ano.
“Começou quando meu irmão nasceu. Ele nasceu no dia de Natal. Mamãe comprou o deus-menino, a família, nossa senhora… e continuou depois que eu nasci… eu nasci no dia 27 de dezembro. Ele não se interessou, e eu continuei com a tradição. Mamãe me ensinou a armar. Depois que eu nasci e fui crescendo, ela foi armando comigo. Nunca deixei de armar. Quando mamãe faleceu, eu não armei grande assim, eu tava triste. Mas armei. E ela dizia que quem tomava essa obrigação tinha que levar adiante. E ela ainda bem velhinha ficava sentada orientando, dizendo “não era assim, não, bote ali”.